A Felicidade de Cozinhar

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“Cozinhar é o mais privado e arriscado ato. No alimento se coloca ternura ou ódio. Na panela se verte tempero ou veneno. (…) – Cozinhar não é serviço, meu neto – disse ela. – Cozinhar é um modo de amar os outros.” (Mia Couto em “O Fio das Missangas”)

Cozinhar está na moda?

Pela quantidade de programas, livros, revistas, blogs, publicações nas redes sociais e cursos, podemos dizer que cozinhar está outra vez na moda. A preocupação pela origem do que comemos e pelas questões de saúde ligadas diretamente àquilo que colocamos na boca permitiu que este movimento de pessoas que cozinha tudo aquilo que come crescesse.

Cozinhar voltou a ser valorizado, e isso é um retorno à sabedoria antiga, em que os(as) cozinheiros(as) ocupavam um lugar importante nas casas, porque eram eles que cuidavam de alimentar e nutrir toda a família.

Saber cozinhar é tão importante para a manutenção da saúde que no Japão os primeiros “médicos” (i.e. aqueles que eram chamados para tratar os doentes) eram cozinheiros e o primeiro “livro de medicina” (i.e. o livro que continha os remédios a aplicar em cada situação) era um livro de sopas.

Cozinhar pode ser o nosso primeiro ato de auto-responsabilidade no que toca à nossa saúde. É, definitivamente, um ato de liberdade e até de “rebeldia” face ao que a indústria alimentar e marketing alimentar nos oferecem. Optar por alimentos e preparações mais saudáveis, e saber cozinhá-los de maneira a que fiquem saborosos e irresistíveis é uma forma de amar.

Eu cozinho tudo o que como1Claro que também como, pontualmente, em restaurantes ou na casa de amigos e família e prefiro alimentos biológicosalimentos exclusivamente de origem vegetal e produtos preferencialmente produzidos localmente e da estação em que estamos.

Quando cozinho sigo os princípios da cozinha macrobiótica e, exceto alguns alimentos fermentados ou condimentos como miso, vinagres, tempeh, entre outros, prefiro cozinhar tudo a partir do zero (cook from scratch, como dizem os ingleses).

Tenho ainda a felicidade de ir buscar alguns ingredientes diretamente à horta, de preparar conservas de vegetais ou purés de fruta no Verão para todo o ano, e de amassar o meu próprio pão.

Cozinhar em atenção plena, Mindful Cooking

Cozinhar em atenção plena… Mas há outra forma de cozinhar? Sim, eu sei, há. A maioria das vezes não estamos realmente presentes quando estamos a realizar as tarefas rotineiras.

Os robots de cozinha, nasceram para nos permitir abandonar a cozinha e deixá-lo a trabalhar, apitando apenas quando é necessário juntar mais algum ingrediente ou quando a comida está pronta. Se tenho alguma coisa contra eles? Nada! Aliás tenho um de que gosto bastante, mas que quase só uso como auxiliar para triturar, homogeneizar, misturar e bater.

Mas cozinhar é uma excelente oportunidade para estar no momento presente, consciente e desperto. Enquanto cozinho tento não estar focada no final da tarefa (despachar a comida como algumas pessoas dizem), mas na tarefa em si.

Pré-preparo todos os ingredientes: peso, lavo, corto, sentindo todos os aromas e uma imensa gratidão. Misturo com ternura, tempero com detalhe (e com amor), provo e retifico. Uso criatividade, até porque às vezes há abundância de um alimento na horta e tento prepará-lo de formas diferentes para que no prato não apareça igual.

Enquanto cozinho tento estar completamente absorvida na tarefa, o que nem sempre é fácil, mas tenho alguns truques que me ajudam.

Um deles é ter a cozinha limpa quando começo a cozinhar e iniciar a primeira atividade, que pode ser só ir buscar legumes ao frigorífico, lavar uns cereais ou pôr uma água a ferver, como se fosse a tarefa mais importante que tenho para realizar. Iniciar qualquer tarefa mais longa com consciência e atenta, ajuda sempre a que toda a atividade siga esse ritmo.

De seguida partilho mais algumas reflexões.

Tarefas que exigem muita atenção

Se há tarefas que exigem muita atenção, como cortar um alimento finamente ou cozinhar em lume alto, estes são os momentos de profunda concentração, em que tento não ter mais nada para fazer em simultâneo.

Estou mesmo concentrada e enquanto percebo todas as sensações corporais. Quanto mais rápida é a tarefa, mais presença me exige.

Tarefas repetitivas

Lavar e descascar vegetais, fazer cortes menos exigentes, mexer continuamente alguma coisa que se pode “pegar”, são tarefas que me dão muito prazer exatamente porque as faço de forma atenta e relaxada, propositadamente consciente, com atenção à postura e sensações corporais com todos os sentidos presentes e sem o objetivo de que a tarefa termine rapidamente.

Demora-se exatamente o mesmo tempo quer a nossa postura seja correta ou, pelo contrário, estando irritados, stressados, ausentes em pensamentos, sem dar conta do que estamos a fazer ou do que o nosso corpo está a sentir.

Tarefas em simultâneo

Quem cozinha sabe que há muitas actividades que são feitas em simultâneo. Enquanto a sopa coze, prepara-se um arroz ou uma salada. Enquanto o forno assa parte da refeição, há outros acompanhamentos para preparar… Há sempre mais do que uma tarefa a executar.

Como é que se pode estar atento e presente no meio do “caos”? O segredo é: quando se está a fazer uma coisa estar plenamente atento ao que se está a fazer, mesmo que estejam outras 10 “em fila de espera”. Se a sopa vai estar pronta daqui a 20 minutos pode usar-se um relógio de cozinha ou um temporizador que nos lembre disso, para podermos estar descansados com essa tarefa enquanto preparamos outras coisas.

Passados os 20 minutos estaremos então totalmente presentes para terminar a sopa.

Magia nos alimentos

Não há duas cenouras iguais; numa couve todas as folhas são diferentes; os cheiros, as texturas, as cores de cada alimento são únicas. A variedade de cores e formatos dos vegetais é enorme, as possibilidade de combinar são imensas.

Quando estou presente, quando cozinho com presença e coração, sinto a vibração única de cada alimento. Isso enche-me de gratidão e a tarefa de cozinhar deixa de ser apenas mais uma coisa que tenho que fazer, passa a ser um momento de magia no meu dia. Os pormenores ligam-me ao momento presente.

Experimento cheirar algum alimento que nunca cheirei profundamente, ou tento perceber a melhor forma de cortar determinado vegetal, ou corto de uma forma que nunca experimentei, ou olho com profundidade para a história dos alimentos que vou preparar naquele momento e sinto a ligação a todos os elementos da natureza de que faço parte.

Relacionarmo-nos com os alimentos pode parecer loucura, mas para mim significa apenas que estou viva e imersa no momento presente.

As distrações

Cozinhar com atenção plena e amor é incompatível com:

– Ter a televisão a fazer constantemente barulho e a mostrar notícias violentas ou dramas de alguém que desconhecemos. Temos sempre a opção de desligar.

– Os telemóveis e as mensagens a interromper constantemente o processo. Podemos dar atenção ao telemóvel e só depois começar a cozinhar. Se só houver tempo para uma coisa podemos escolher o que seja mais importante.

– Sentir nojo pelos alimentos que estamos a preparar. Se há alguma coisa que nos mete nojo, deixa desconfortável ou agonia, não o devemos fazer porque o resultado final não vai ser bom para quem vai comer. Eu recuso-me a cozer animais vivos (ameijoas, por exemplo).

No entanto, cozinhar com atenção plena e amor é compatível com:

– Presença de outras pessoas que respeitem o que estamos a fazer e com quem se possa dividir tarefas.

– Filhos pequenos a quererem ver o que estamos a fazer. Aconselho a arranjar estratégias, como cadeirinhas altas que se fixem ao balcão ou transportar a criança num pano porta bebé que mantenha as nossas mãos livres e a criança em segurança. Já cozinhei com um filho agarrado a uma perna e outro ao colo, e não é o mais agradável. Nessas situações claro que a atenção é dividida por todos, ficando a comida com a menor parte. Mas logo que tenham idade, podem ajudar a lavar legumes num alguidar, mesmo que isso signifique a cozinha um pouco mais suja no final.

Cozinhar é uma perda de tempo?

Cozinhar parece uma perda de tempo. Pode passar-se uma manhã na cozinha e em pouco mais de meia hora todos os alimentos serem consumidos e, muitas vezes, sem a atenção e apreço que mereciam.

Mas cozinhar é a única forma de nutrir o corpo não só com comida, mas com o alimento que sacia mais do que o corpo físico. Acredito que a comida está carregada de energia, dos próprios alimentos e da forma como eles foram confecionados: “No alimento se coloca ternura ou ódio. Na panela se verte tempero ou veneno.”

Cozinhar com sabedoria e presença é a melhor forma: de reduzir idas ao médico, à farmácia e ao hospital; de reduzir dores, doenças e os períodos em que temos que ficar em casa a tratar-nos; de aumentar a nossa vitalidade e nutrir em profundidade o corpo e a alma.

Quando sabemos cozinhar também percebemos que comer não é “meter qualquer coisa à boca”. Comer é um ato de profunda intimidade para com o nosso corpo. Aquilo que comemos vai transformar-se no nosso sangue, nas nossas células, nos nossos órgãos, … Cozinhar é um modo de amar, não só os outros mas a nós mesmos, e isso não é, de certeza, perda de tempo.

Para ser feliz na cozinha…

  • Quando for para a cozinha descontraia-se, deixe do lado de fora da porta todas as preocupações.
  • Arranje um avental alegre para se lembrar do estado em que quer estar nesse momento.
  • Mantenha a cozinha ordenada e limpa tanto quanto possível, antes, durante a confecção dos alimentos e no final.
  • Cozinhe com fluidez, sem tensão. Tome atenção ao corpo enquanto cozinha e deliberadamente descontraia-se.
  • Encha-se de gratidão pelos alimentos, pela vitalidade de que vêm carregados e pelas possibilidades de os transformar numa refeição que promova a saúde de todos.
  • Ame cada detalhe daquilo que está a fazer, colocando-se de coração na preparação da refeição.
  • Se não sabe cozinhar, aprenda. O melhor, no início, é cozinhar para alguém que ame.
  • As refeições mais nutritivas têm poucos ingredientes.  A simplicidade é uma regrade ouro na preparação das refeições.
  • Faça tudo em atenção plena.
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Dulce

Com formações e experiência nas áreas da Macrobiótica e no Mindfulness, desenvolvi o projeto Mil Grãos, onde o foco é oferecer-lhe informações, conhecimento, prática e experiências para uma vida mais Humana, Ecológica e Espiritual.

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